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Edição 001

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Modelagens climáticas indicam aumento dos eventos extremos de clima no país

Projeções sugerem que região centro sul deve se preparar para secas mais prolongadas e chuvas intensas; o setor agrícola, incluindo cana-de-açúcar, está entre os que serão mais afetados pelos impactos futuros do clima no Brasil.

 

Mesmo em um cenário otimista, o interior do Estado de São Paulo, o centro-sul de Minas Gerais e sul de Goiás, locais que concentram cerca de 90% da produção de cana no país, devem se preparar para enfrentar, nos próximos anos, o aumento da intensidade, duração e frequência de períodos de seca. Os dados são do Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (AdaptaBrasil – MCTI). Segundo os cenários indicados pelo Sistema, as probabilidades do aumento das secas nessas regiões, em diferentes índices de intensidades, vão do nível médio a muito alto.

Por traz desse fenômeno está a elevação da temperatura média do planeta em cerca de 1,1°C, ocorrida nos últimos 70 anos, segundo o relatório Mudanças Climáticas 2021 – Bases da Ciência Física – Sumário para Formuladores de Políticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima das Nações Unidas (IPCC – sigla em inglês).

“A mudança do clima tem aspectos globais, mas o verdadeiro impacto é sentido na escala local e regional”, explica Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, especialista em modelagem climática e autor líder do Grupo de Trabalho I (WGI) do Sexto Relatório de Avaliação (AR6) do IPCC. Segundo Alves, no Brasil, todas as regiões já apresentam mudanças de temperatura ou do regime de chuvas. “No Brasil central já temos um padrão muito significativo na variação do volume de chuvas e, associado a isso, o aumento dos eventos extremos, seca e ondas de calor, estiagem mais prolongadas e chuvas mais intensas. Não se trata de projeções, esses eventos já estão ocorrendo e são vivenciados”, alerta.

O documento do IPCC atesta que a temperatura do planeta começou a subir de forma consistente a partir da segunda metade do século 20 e segue aumentando a uma taxa sem precedentes em mais de dois mil anos. Se continuar esse ritmo, o aquecimento de 1,5°C acima da média histórica será atingido em meados de 2040. A partir disso, as alterações climáticas tendem a se intensificar. Há projeções que indicam que esse aumento deva variar nos próximos 80 anos entre 3,3°C, no cenário mais otimista, podendo chegar a 5,7°C, se as emissões de gases de efeito estufa seguirem crescendo nos atuais índices.  “Essas projeções são detalhadas, levam em conta vários fatores naturais e a ação dos seres humanos. Não há mais espaço para negacionismo”, garante o especialista em modelagem climática.

Impacto na agricultura

Os efeitos das mudanças climáticas devem ser sentidos de formas variadas nas diversas regiões do Brasil. Na região Norte, por exemplo, a Quarta Comunicação Nacional do Brasil à Convenção para as Mudanças Climáticas da ONU (UNFCCC ) atesta a possibilidade de redução no índice de chuvas entre 10 e 20% em relação à média histórica. Já, na região central do país, responsável pela maior parte da produção de grãos e de cana, os modelos climáticos apresentados ainda divergem sobre a redução, ou não, dos índices pluviométricos, mas convergem para a maior ocorrência de eventos extremos. “A mudança não será catastrófica, mas o setor tem de se planejar para se adaptar aos problemas resultantes dessas variações climáticas”, diz Alves.

De acordo com o pesquisador do INPE, já se observa que algumas regiões do Brasil, até há pouco favoráveis a determinadas culturas, hoje já não se apresentam tão favoráveis. “Produtores do sul do Mato Grosso e noroeste do estado de São Paulo, por exemplo, já são obrigados a investir mais para manter a taxa de produtividade da cana”, diz. Para o especialista em modelagem climática, num primeiro momento, a queda de produtividade em algumas regiões deve ser compensada por maiores investimentos em tecnologias como irrigação, manejo e preparação do solo, alterações no período de plantio e, ainda, no uso de espécies mais tolerantes à seca.

Segundo Alves, é perceptível o início de uma movimentação no setor agrícola com relação às mudanças climáticas. Esse fato não era comum há apenas cinco anos. Cana, café e até madeira reflorestada para produção de celulose estão entre os setores que começam a ficar mais atentos às possíveis implicações climáticas futuras. Na opinião do pesquisador, isso está ocorrendo porque os produtores já começaram a sentir os efeitos das mudanças do clima no bolso. “Tanto os governos como o setor privado reconhecem a crise climática”, afirma. “Mas existe um descompasso, uma certa desconexão entre reconhecer e começar de fato a implantação de ações mais efetivas de prevenção e de mitigação do problema”, acrescenta.

Desmatamento

Na maior parte do mundo, o aquecimento global está relacionado à queima de combustível fóssil. No Brasil, o grande problema são as emissões a partir de práticas de uso e manejo da terra tais como desmatamento e queimadas, seja para agricultura ou pecuária. Alves informa que há dados claros que ligam o desmatamento e os incêndios às mudanças nos ciclos hidrológicos regionais. Ele frisa que o desmatamento provoca alterações nas características de início e fim das estações, nos extremos climáticos e contribui para causar problemas econômicos e de saúde, como doenças respiratórias. “O desmatamento contribui sobremaneira com a crise climática, que é um problema multifacetado, interdisciplinar, que envolve não apenas questões de clima, mas principalmente questões econômicas e sociais”, frisa Alves.

Para o pesquisador do INPE, é completamente falsa a justificativa que correlaciona o desmatamento com a necessidade de ampliação das terras agrícolas. “Isso já caiu por terra. Os números mostram que é plenamente possível ter produções bem maiores em espaços mais reduzidos. E dispomos de tecnologia agrícola de ponta necessária para isso”, explica.

O especialista considera que o Brasil pode até, por hora, não querer se comprometer com as questões relativas ao aquecimento global. No entanto, é uma questão de tempo para a pressão internacional se intensificar em sentido contrário. “As sanções econômicas virão com força e isso não deve demorar a acontecer”. Ele destaca que a ciência dispõe de todos os dados e as evidências observacionais relacionando uma crise climática iminente com o desmatamento. A discussão, defende Alves, deve entrar na agenda de planejamento de médio e longo prazo tanto dos governos, como do setor produtivo e da própria sociedade. “Aqui no Brasil gostamos de terceirizar os problemas. Espera-se que os governos sejam os únicos a atuarem nessa questão, mas se eles não agirem, quem vai pagar a conta somos todos nós”, adverte.

Sobre o BIOEN: O BIOEN, Programa de Pesquisa em Bioenergia da FAPESP, visa articular pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I) entre entidades públicas e privadas, utilizando laboratórios acadêmicos e industriais para avançar e aplicar o conhecimento nas áreas relacionadas à bioenergia no Brasil. As pesquisas abrangem desde a produção e o processamento de biomassa até tecnologias de biocombustíveis, biorrefinarias, sustentabilidade e impactos. Para mais informações, acesse http://bioenfapesp.org

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